Eu amo São Paulo, e adoro o isolamento que a multidão proporciona. Não vejo ninguém, me isolo com meu MP3, ouvindo notícias, tentando me manter em pé, e o menos espremido possível. Contudo, há alguns transtornos.
Hoje de manhã, por exemplo, fiz o caminho de todas as manhãs: São Bernardo, trólebus, Santo André, trem, Brás, metrô, Anhangabaú. Estava chovendo. Fui com meu guarda-chuva novo e enorme, e me arrependi quando cheguei ao trem. Não conseguia me segurar e segurá-lo ao mesmo tempo. Resolvi dar prioridade ao objeto, já que eu não tinha pra que lado cair mesmo.
Chegando na estação Brás, aquele empurra-empurra de sempre, e fui prensado: havia uma mulher de meia-idade na minha frente, um rapaz de uns dois metros de altura atrás, e estava bem na porta, com ambos me empurrando em sentidos opostos, quando as portas do trem se fecharam, e trataram de me prensar também pelos lados. Numa tentativa desesperada de fuga, pulei pra fora, e meu guarda-chuva novinho, que eu estreava, ficou preso. Consegui puxá-lo, mas o coitado sofreu uma fratura exposta em uma de suas hastes. Prossegui no trem seguinte e cheguei em segurança.
Mais tarde, saí com dois colegas do serviço em direção à Avenida Paulista, e pegamos três metrôs (pra quem conhece: Anhangabaú – Sé, Sé – Paraíso, Paraíso – Consolação). Fomos a trabalho. As estações e trens bem mais vazios nos trouxeram a sensação de alívio, mas logo quando o trem parou, ocorreu o que de praxe acontece nesta terra cheia de gente sem educação: entraram no trem umas oito pessoas, o trem estava vazio, e as oito pararam bem em frente à porta, formando uma espécie de “barreira” à nossa entrada. Resultado: um segurando a porta, outro tentando correr, e eu, com a minha massa corporal mais avantajada, empurrando os animais que se recusavam a admitir que estavam sim ouvindo os pedidos de licença. Quando conseguimos entrar, deslocando o gado, nosso herói segurador de portas ainda ficou com o pé preso pra fora. Uma risadinha substituiu o palavrão.
Voltamos ao nosso local de trabalho de táxi, com dó dos que nos acompanhavam por baixo da terra.
Na hora da volta pra casa, uma colega me acompanhava, na mesma estação Anhangabaú, desta vez totalmente lotada. Achei estranha a ausência de aglomerações na catraca, mas já estavam todos no trem. A estação Anhangabaú recebe alguns trens vazios na hora do rush, que saem do pátio passando direto pelas estações anteriores, mas a maioria já vem lotada. Isso é um problema, já que muita gente fica por muito tempo na plataforma aguardando o trem vazio, e ficam parados exatamente onde as portas dos trens abrem. E pior: não se movem, ficam cegos, surdos e mudos!
Chegou um trem. Não estava vazio, mas dava bem pra entrar. “Vamos? Vamos!” Íamos, se um idiota não nos obstruísse. Com feições orientais, uns 60 ou 70 anos de idade. Ela toda educada atrás: “senhor, me dá licença? Ei, senhor, só uma licencinha, por favor”! Ele não se mexeu. Talvez fosse surdo, mas ela gesticulou, até cutucou. Nada. Ela conseguiu se esgueirar à sua esquerda, com a colaboração da outra “barreira” ao lado do japa. Eu, aproveitando o porte, pedi licença já fazendo o pseudo-japonês ter de se equilibrar em alguém que o segurou. A porta se fechou, e não conseguimos embarcar, graças à barreira humana(?) formada. Paramos a centímetros da beira da plataforma, e entramos no trem seguinte, mais apertado, e ficamos olhando as caras de “ontem” do pessoal na barreira. Ainda fomos com duas meninas conversando, cada uma de um lado meu, e gritando como se eu impusesse uma distância de 50 metros entre as duas. Por que eles falam tão alto?
Na estação Sé, onde a maioria do pessoal desce, descemos para dar espaço às pessoas, ao contrário do que as mesmas pessoas fariam por nós. Foi uma visão linda: pessoas com as mais diversas caras e expressões, passando por nós como janelas do Windows, naquela proteção de tela antiga, na qual as janelinhas vinham de longe e passavam pelo monitor. Depois da correria, a decepção.
Fui ligar meu MP3, e a pilha acabou em menos de um minuto. Não pude ouvir as notícias da Band News, então fui ouvindo as conversas populares, comentando as manchetes do dia. Eis a transcrição, da forma que me chegaram os comentários:
Brasil – Cê viu lá no Rio? Mó chuvão, desbarrancou tudo, um absurdo! Se tem favela no morro, tem que ter arrimo! E se tivesse alguém dentro do túnel? Tinha morrido tudo sem ar! (O túnel Rebouças, no Rio de Janeiro, foi interditado pelo deslizamento de terra em um dos seus lados, sem que, contudo, se vedasse o túnel.)
Previsão do Tempo – Parou de chover, né? Diz que amanhã chove menos, e sábado vai fazer mó solão! É bom, que dá pra fazer o churrasco... (Previsão do Weather Channel para sábado: pancadas de chuva.)
Política – Devia ter metrô até o ABC, né? Mas sabe por que não tem? Porque os prefeito não se une, fica tudo brigando por interesse pessoal, e não cuida do povo. Podia ser em cima da terra mesmo, nem precisa cavar buraco. Isso aqui mesmo, ó: aumenta a velocidade do trem, joga um cimento aí no chão e pronto: vira metrô! Aí já tava tudo resolvido. Mas esses prefeitos não fazem nada! (O metrô é de responsabilidade do Governo do Estado, assim como o trem no qual estávamos).
Esportes – Será que o Corinthians cai? Acho que não viu? Eles não vão deixar. Porque toda vez que algum time grande ta ameaçado, eles tiram de lá. Mas o Palmeiras caiu, né? Ah, mas eles deixaram o Palmeiras cair só pra todo mundo pensar que é direito, mas não é não. Eles não vão deixar o Corinthians cair não. (Eu me pergunto: eles quem?)
Mundo – Você viu aquele aviãozão lá? Se vem pro Brasil, cai e morre um monte de gente! (O Air Bus A380 fez seu primeiro vôo comercial hoje, e tem capacidade para mais de 800 passageiros.)
Desci do trem e cheguei a um lugar mais civilizado. Boa noite. Amanhã tem mais.